Eu poderia dizer que foi o tratamento direcionado pra SOP (síndrome do ovário policístico) e disbiose que me fizeram mudar tanto, mas não foi (somente) isso! O diagnóstico, a busca por ajuda especializada, a força pra mudar, os resultados… tudo isso chegou quando eu também cheguei “ao fundo poço”. A morte da minha mãe trouxe à tona muitas questões familiares (segredos super tensos), a pandemia me tirou da zona de conforto (assim como à todos), e a quarentena me fez lidar com uma das minhas piores sombras – o medo de ficar sozinha. Minha infância foi marcada por uma mãe negligente e irresponsável, um pai ausente (não por escolha), e um ambiente familiar completamente disfuncional. Não que eu não fosse feliz – tenho lembranças maravilhosas da minha infância – mas é difícil crescer num lugar onde seus sentimentos são negados a todo momento, em que cada menor deslize rendiam castigos tão doloridos que a pele ainda guarda cicatrizes, em que os adultos eram irresponsáveis e você não sabia em quem podia confiar.

A dor da rejeição e do abandono ditaram o rumo da minha vida por muitos anos e foi só quando eu finalmente olhei pra isso – e a pandemia + morte da minha mãe não me deram alternativas – que a coisa foi se resolvendo. Não vou ser hipócrita e negar que fundei o GoodTruck pra ser vista. Quando você é menor e as pessoas mais importantes da sua vida não te enxergam, o que você faz? Age pra chamar a atenção. Eu precisava me sentir útil, boa, provar inclusive pra mim mesma que eu poderia sim ser amada ou importante pra alguém. A vontade de estender a mão, de ajudar, veio de um lugar de quem precisou muito de ajuda e não teve! Que precisou lutar muito, sozinha, e sabe o real valor de poder contar com alguém. Fui levar aos outros o acalento, olhar carinhoso, a atenção e o cuidado que eu senti falta. Eu queria ser presidente aos 7 anos de idade porque eu queria mudar tudo que eu achava que era “errado”. Porque eu via muita coisa errada, especialmente dentro da minha própria casa, e cada vez que uma pessoa que eu amava era punida e sofria as consequências dos seus erros, eu sofria junto.

Uma baixíssima auto estima + o medo de ser rejeitada/abandonada de novo me fizeram crescer e viver em estado de alerta. Sempre pisando em ovos, tentando agradar todo mundo, sofrendo muito quando deslizava, tentando ser e parecer o mais “perfeitinha” possível, vivia com um escudo erguido pra me defender da menor possibilidade de críticas, embates, etc, procrastinava e me sabotava em TUDO que eu conseguia, e seguia sem a menor ideia de como criar vínculos com as pessoas – afinal, os exemplos de vínculos que eu tinha eram péssimos.
Precisei olhar pra toda sujeira que eu escondia atrás da “vegana sustentável fundadora de ONG, que já participou de eventos da ONU, se alimenta bem, corre maratona, faz yoga, e participa de um grupo de jovens líderes do Fórum Econômico Mundial” pra entender que nenhum desses rótulos jamais trouxe o amor que eu realmente queria. Precisei me livrar de todo peso que eu carregava pra que meu corpo deixasse ir o excesso de peso que ele também carregava pra dar conta do meu emocional. Quanto “maior e mais forte” mais fácil de ser vista e notada, certo? “Magra e pequena” dá a sensação de fragilidade, e como eu ia me aceitar menor se EU mesmo não me permitia ser frágil e vulnerável eventualmente?

Lembro até hoje quando fui fazer uma aula de yoga com a Cristiane Esteves em Curitiba e ela me falou “não precisa fazer mais força, sei que você está dando o seu melhor”, e eu desabei! Chorei! Nunca tinha sentido essa liberdade de poder escolher não ser forte. Mais recentemente, minha atual psicóloga Camila D’Orázio também me perguntou: “Gabi, porque você sempre coloca as vontades e opiniões dos outros acima das suas?” E eu contei pra ela que minha mãe era muito egoísta e eu sofri muito com isso a vida toda, então tentava tomar cuidado pra não ser como ela. Ela me disse: “Percebe que você tá fazendo consigo o mesmo que ela fazia com você? Te deixando em segundo plano e reforçando na sua cabeça que você não importa!”. SEMPRE carregando a projeção dos outros ao invés de me permitir ser eu mesma.

São anos estudando nutrição, gastronomia, psicologia e espiritualidade de diversas formas pra finalmente ter coragem de sentar e conversar com a minha família sobre a sua (nossa) história e entender que tudo tem um motivo. O jeitinho de cada um, a forma que busca reconhecimento, atenção, amor, que se defende, que ama, que se comunica, é fruto do contexto em que viveu. TUDO TEM UM MOTIVO, e nada disso é pessoal. Nada do que passamos significa que não somos bons o bastante, que não merecemos isso ou aquilo, ou que somos pessoas ruins, mas sim padrões de dor que são passados adiante no nosso sistema familiar.

Apesar de não ser “nossa culpa”, é sim nossa responsabilidade olhar pra toda dor que sentimos, RESSIGNIFICARMOS, e construirmos um futuro diferente. Afinal, eu não quero que meus filhos precisem lidar com tantas questões emocionais/psicológicas como eu tive/tenho. Você quer? Um mundo melhor começa dentro de nós ❤️

Já parou pra pensar quanta coisa seria diferente se a gente não quisesse provar nada pra ninguém, e estendesse mais a mão pra ajudar do que pra julgar?

Não sei o quanto esse post vai ajudar ou não, se vai fazer sentido, mas eu ando tão cansada dessas fórmulas prontas pra emagrecer, pra ter saúde, pra ter sucesso, pra ser feliz, que quis trazer aqui o que considero que seja a chave por traz de toda mudança (a “dieta” mais eficaz do mundo): a coragem pra olhar pra tudo que te dói, com os pés no chão, e abrir mão de todos os significados que você deu baseado no seu ego (no que você achava, sentiu, interpretou…).
O quanto você está usando comidas, compras, relações, livros, cursos, pra se distrair do que realmente precisa de atenção e carinho? Do que realmente precisa ser visto, analisado, estudado e transformado dentro de você? Só tenho encontrado minha “cura” agora, e só consegui mudar meu quadro de saúde quando a dor das feridas emocionais começaram a não me incomodar tanto mais – e não preciso mais de comida pra anestesiá-las. Só hoje, depois de 4 anos falando sobre empatia dentro da ONG que fundei, tive coragem de ter empatia até com quem me feriu, por entender que estavam feridos também. E abrindo mão do medo de ser julgada, abandonada, rejeitada, etc, que a ansiedade que me fazia comer mais, comer mal, e viver em estado de alerta (stress constante) tem ido embora, e minha saúde tem encontrado seu equilíbrio e sua constância dentro de um corpo e de uma alma que não PRECISA ser vegana, sustentável, ou qualquer outro rótulo “exemplar” pra achar que merece viver bem.

A título de informação, o estresse é raiz de muuuuitas doenças físicas e emocionais, e nossa história de vida – e como interpretamos ela – é o que determina quanto estresse vamos vivenciar no nosso dia-a-dia. Por isso psicologia e nutrição andam TÃO de mãos dadas! Se esse post te ajudou, te trouxe algum insight, identificação, algum sentimento, envia pra alguém que você acha que precisa ler, me diz se gosta de saber sobre psicologia e nutrição, e me conte um pouquinho de você também – eu vou amar saber <3 (obrigada por ter me ouvido até aqui).

*A título de informação 2: as fotos desse post foram tiradas em julho (esquerda) e dezembro 2020.

Eu sou a Gabi ? Sou arquiteta urbanista e metida a cozinheira! Desde que resolvi entrar no mundo do esporte, mudei minha alimentação e, consequentemente, meu olhar sobre o mundo e sobre o meu corpo. Hoje sou maratonista, me locomovo principalmente de bike, não consumo carne há três anos, intolerante à lactose, e vivo inventando moda na cozinha, onde aprendo muito todo dia ❤

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